Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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03.11.06

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Realidade Nua e Crua

Se existe um diretor de filme brasileiro que consegue criar ficção com ares de documentário, este é Sérgio Bianchi. Já falei sobre ele anteriormente, mas como assisti a mais um dos seus excelentes filmes, vim falar novamente sobre esse grande revelador das relações humanas.

Sérgio Bianchi simplesmente mostra a realidade nua e crua, a realidade que ninguém quer ver. Ele pega todos os males de uma sociedade e une em uma grande teia de acontecimentos. Não é um diretor pessimista, ele apenas mostra a essência de tudo: o que está por trás do sorriso de uma criança carente, por trás de uma negociação, por trás de um favor. Vou comentar sobre dois de seus filmes que assisti:

Cronicamente Inviável

O filme foi produzido em 2000. Considero-o como um dos melhores filmes que já vi. Os personagens, ou até estereótipos, vão atuando sobre uma espécie de hegemonia natural. São quatro pessoas de classe média ou alta que sempre jantam no mesmo restaurante. Ali, comentam sobre as injustiças sociais, mas a única coisa que fazem é contribuir a elas. No decorrer do filme, vão se dando mal, um por um. Há mais dois personagens importantes: um sulista que vai para São Paulo a procura de emprego, mas percebe a grande sacanagem que há na capital paulista; e um professor universitário que viaja pelo país anotando toda a desigualdade que vê para colocar no livro que está escrevendo. De início, parece o melhor personagem, aquele que todos admiram por sua intelectualidade, porém, posteriormente descobre-se que é um traficante de órgãos nas horas vagas.



Oscilando entre a ordem e a desordem, Cronicamente Inviável mostra como o Brasil está imerso na bagunça, na destruição, na mentira, na hipocrisia. Os próprios desfavorecidos vão se acabando entre si. Aqueles que pretendem mudar a realidade também não conseguem êxito, pois não têm forças para lutar contra o enorme sistema elitista, a cruel dinâmica sócio-econômica. É um filme fantástico que eu recomendo para ver, refletir e até copiar uns trechos como eu fiz e publiquei em julho deste ano nesse blog.

Quanto vale ou é por quilo?

Um pouco mais recente que o anterior, este é de 2005. O jeitão realista é o mesmo, mas com outro foco. Aqui, Sérgio Bianchi faz um paralelo entre a sociedade escravocrata e a atual, mostrando que mesmo com muitos anos que passaram, o Brasil não mudou: continua tratando gente como mercadoria. Todas as relações sociais envolvem dinheiro, mesmo que implicitamente, o que se faz, espera-se de alguma forma, como um empréstimo com juros. O núcleo da história gira em torno de vários personagens: donos de ONGs, políticos, donas de casa e suas amigas etc. O filme mostra a corrupção e falência das instituições que vendem solidariedade, ou seja, que arrecadam dinheiro para ajudar pobres. Na verdade, grande parte do dinheiro fica com eles, sobrando uma pedacinho para os pobres com um único fim, a autopromoção.



Ao mesmo que mostra essa história das ONGs, faz diversas referências a escravidão, mostrando que ainda somos uma sociedade arcaica, apenas interessada nos lucros acima de tudo! Outro filme bem interessante que vale a pena assistir, ajuda a entender (e muito) os relacionamentos sociais. Após assistir a esse filme, tenho certeza que vai enxergar seus amigos com outros olhos...

Para finalizar, uma foto do Sérgio Bianchi. Bons filmes!



Postado por Adriano

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