Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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29.10.06

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Desvalorização do Sertão

Quando pensamos no sertão, aliás, na região Nordeste do Brasil, generalizamos a nossa imagem com paisagens desérticas, crianças magérrimas passando fome, retirantes saindo em grupo sob um sol escaldante, animais morrendo, etc.

Essa “trágica” visualização é produto de cenas que vemos em filmes, fotos de revistas e outros meios de comunicação em massa, como a televisão, que lentamente, enquanto crescemos, vão nos moldando uma opinião que nem é, de fato, nossa.

Aprendemos a resumir o que está fora dos nossos conhecimentos com uma única palavra ou imagem. Basta pensar no estado do Amazonas para imaginar uma grande árvore em meio a tantas outras ao fundo. Este pensamento restrito é o maior estímulo ao preconceito que é exercido para com o Nordeste, motivando as pessoas a simplesmente ignorarem por completo tudo que lá existe, mesmo sem saber o que existe.

O sertão, além de sofrer esse preconceito quanto a seu aspecto físico, também sofre outros tipos de discriminações, como ocorre em relação a sua cultura. Um exemplo disso é a música sertaneja, que geralmente trata de problemas sociais e econômicos da região. As canções verdadeiramente sertanejas, e não as “marketeiras”, são conhecidas como “música de raiz”, justamente por serem da raiz do povo nordestino, tanto na linguagem quanto nas temáticas. “Asa Branca” e “Súplica Cearense”, ambas compostas por Luiz Gonzaga, são ótimos exemplos de músicas sertanejas enraizadas.

Assim como a Amazônia tem suas características próprias, outros ambientes, como o cerrado, pampas gaúchos, “Terra da Garoa”, também têm suas singularidades, e todas devem ser entendidas e respeitadas no contexto local de onde se inserem. Modificar o equilíbrio de um ecossistema, de maneira a criar um novo equilíbrio é muito mais complicado do que trabalhar com as condições para as populações que ali vivem, em outras palavras, devemos nos adaptar ao território, e não esperar que ele se adapte a nós. Para a seca do sertão, devemos criar uma solução de distribuição e tratamento da água, e não desejar que a seca acabe, fato que não ocorrerá, aliás, tende a piorar com a desertificação dos ecossistemas globais.

Aceitar, confrontando com nossas idéias, que existe o outro lado do sertão, quase que desconhecido por nós, tampouco valorizado, pode ser um grande desafio. Muitas das plantas de lá possuem propriedades farmacológicas que poderiam ser muito úteis, só não são porque investe-se pouco nesta área. A primeira economia brasileira, baseada na cana-de-açúcar, iniciou-se lá com a colonização portuguesa. Suas características, por sua maioria diferentes das de outras regiões, garantem uma biodiversidade diferente, tanto na flora, citada anteriormente, quanto na fauna, com seres adaptados.

As idéias errôneas que cada um assume sobre determinado assunto são mais fáceis de serem modificadas do que as fontes que passaram essas idéias, uma vez que os meios de comunicação em massa insistem em fazer uma “lavagem cerebral” simplesmente para encaminhar os interesses populacionais; a maior tarefa é estimular cada indivíduo a ponderar se aquilo que chega até ele é realmente uma informação confiável, da qual tem-se provas, além do mais, uma das dificuldades de viver em país de grande extensão territorial, como o nosso, é a impressão de que existem vários “Brasis” confrontando como uma disputa internacional, desunindo a nação tão sedenta por desenvolvimento.

Postado por Adriano

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