Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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Terra Blog

20.12.06

Permalink 11:04:44, categorias: Social, Ciência. criado por letrasdespidas

Aborto: discussão interminável

O conflito da permissão à prática do aborto, talvez um dos mais polêmicos da atualidade, atravessa séculos e ainda não se estabeleceu. O seu impasse envolve questões religiosas, éticas, biológicas, sociais etc, talvez por isso seja tão complicado chegar a um consenso. Vou dizendo, antes de tudo, que apesar desse blog ter um aspecto jornalístico, ele não foi feito para ficar informando os leitores, pondo os dois lados opostos e deixando que ele pen-se melhor sozinho. Não, eu não vou ser imparcial, colocarei porque acho que o aborto deve ser permitido.

No caso de estupro e risco de morte à mulher, já é aceito fazer aborto. Mas essa prática deve ser estendida, deixando que os pais escolham interromper a gravidez ou não. Não po-demos esquecer que mesmo com os métodos contraceptivos existe a probabilidade – pe-quenas, mas existe – de falhar. Neste caso, a gravidez indesejada é muito mais cruel, pois modificará de forma brutal a vida dos novos pais, que podem não ter condições para cuidar da criança, e isso gera tantos problemas futuros.

Os fanáticos religiosos podem dizer o que quiser. Podem falar que aborto é crime porque estará impedindo uma alma de se manifestar no mundo terreno, ou que estaremos desobe-decendo a um dos Dez Mandamentos de Deus, que é o “não matarás”. Não importa o que eles disserem, será um falso moralismo. Eles adoram mostrar como nós, seres materialistas que não oramos antes de dormir, somos os antiéticos da humanidade. Mas deixar um bebê nas mãos de pessoas que não têm condição nenhuma de dar uma vida digna, garantindo as condições mínimas de sobrevivência e formação cultural básica, já é demais.

Se mesmo casais pobres que querem ter um filho já suam para dar seu sustento, imagine aqueles que não estão preparados. Daí ocorre noticiais desumanas como vemos na televi-são: mãe que abandona o filho recém-nascido em lata de lixo, ou que deixa boiando em lagoas, e tantos outros fatos que só fazem a gente ter uma certeza: tem que estar disposto e ciente das responsabilidades para criar um filho, ainda mais na nossa sociedade moderna onde filhos são associados a gastos.

Questionar a validade do aborto, tendo em vista o momento exato em que a vida começa, é ser um tanto superficial. Concluir que a vida começa no instante da fecundação, ou quan-do o óvulo, já fecundado, junta-se à parede do útero, ou quando o coração do feto começa a bater, ou quanto se iniciam atividades cerebrais etc, é muito complicado, há diversos pontos de vista a avaliar sobre o início da vida. Numa discussão de tamanha magnitude, deve-se projetar para o plano do real, fora da barriga da mãe e ver que a questão envolve esferas sócio-econômicas que também devem ser levadas em conta e, por isso, só a mãe e o pai podem dizer se querem ou não ter o filho. Não estou falando que o médico deve dizer: “Ah, vocês são pobres? Então me desculpem, vou abortar seu filho”. Não, nada disso. Existem pais que não tem muitas condições mas conseguem educar muito bem o seu filho. Essa questão é tão relativa que por isso deve ficar a critério dos pais.

Recentemente, o jornal A Folha de S. Paulo publicou uma notícia de um caso de anencefa-lia. Essa doença é caracterizada por problemas no cérebro do feto, interrompendo seu de-senvolvimento. No caso da Folha, apresentou uma menina cujo córtex cerebral não foi de-senvolvido. A conseqüência disso: caso o feto se tornasse uma pessoa, ela não seria capaz de pensar nem de sentir, apenas controlaria sua funções vitais básicas, como batimentos cardíacos, respiração etc. O que você faria se soubesse que seu filho nasceria anencéfalo? Eu abortaria tranqüilamente, decidido de que, mesmo deixando de ter um filho, seria a me-lhor escolha, afinal, o que é uma pessoa anencéfala?

Os cientistas achavam que a menina morreria dentro da barriga da sua mãe ou que, se vi-vesse, não duraria algumas horas. As comunidades locais dizem que ocorreu um milagre: a menina já está há mais de 25 dias viva. O nome dele é Marcela de Jesus, em homenagem ao Padre Marcelo Rossi, segundo a mãe dela. Todos estão comemorando e ela virou símbolo de antiaborto. Agora eu pergunto: não seria justamente o contrário? Qual é a glória de ter uma criança sem cérebro, praticamente? Alguém que não pode pensar, sentir, nem fazer nada, o que é então? A menina não terá liberdade nenhuma, viverá eternamente dependente dos cuidados de sua família, não aproveitará o mundo, não criticará os erros, não viverá e pronto! Viver não é só respirar. Se for para ficar em estado vegetativo, qual é a vantagem da vida? Para mim, nenhuma. Se eu fosse anencéfalo, me abortem, por favor!

Como forma de respeito à mãe da menina, os médicos perguntaram se ela queria interrom-per a gravidez, lá pro quinto de mês como gestante. Como a mãe negou, então arque com as conseqüências, isso se a menina viver por muito tempo. Já que acreditou no milagre de Marcela viver quase um mês, então fique acreditando no milagre de surgir um cérebro do nada na cabeça dela.

E depois vem os conversadores querendo insinuar que nós somos imorais? As cartas estão todos à mesa, basta ver qual caminho você prefere. Eu escolhi o caminho da liberdade mesmo tendo que fazer alguns sacrifícios, mas tem quem prefere ficar no ideal retrógrado que enxerga, de maneira limitada, apenas um pedaço da questão: ‘o agora’. Os liberais enxergam ‘o depois’.

Assim como não podemos impor uma decisão tão forte quanto o aborto sobre os pais, não podemos tirar deles essa possibilidade. Proibindo a prática abortiva, aumenta o número de convênios não autorizados, presentes nas clínicas compostas por pessoas não especializa-das. Estas praticam o chamado “aborto caseiro”, que pode ser nocivo à saúde do feto e da gestante. Nascer sem estar planejado ou preparado, com seqüelas, sem cérebro e sem no mínimo os primeiros momentos da vida como ser vivo digno é bem pior do que interromper o desenvolvimento de células. Por isso, não aborte o aborto. Ele estabelece um direito a todos, que não vivemos mais na barriga da mamãe e sabemos como essa vida é difícil.

Postado por Adriano

Obs: você deve ter reparado que há alguns hífens quebrando algumas palavras. É por causa de um erro de formatação, mas tudo bem, dá para entender mesmo assim.

Comentários

Achei tão profundamente rasa a sua pergunta: qual a "vantagem" de ter um filho em estado vegetativo.
Faço então uma outra: qual a vantagem de ter um filho com autismo, down, deficiência visual ou física? Sabe aqueles casos em que se detecta a doença ainda na barriga da mãe? deveríamos, inteligentemente práticos, e liberais, como vc gosta de se auto denominar, e exterminar estes casos de indivíduos defeituosos. Engraçado, parece que eu já ouvi uma história assim...
Um homem muito bem intencionado...
Ah. lembrei-me...era um tal de Adolf não sei de que,
e a sua idéia era a raça pura.
Cuidado com suas idéias...
Deus te abençoe e te guarde.
Permalink simone margareli \\ 10.02.07 21:23:58
Eu sou a favor da legalização do aborto.
Mas não sou totalmente a favor do aborto...Acho melhor você deixar o filho para adotar do que abortar...Mas quero dar a liberdade da pessoa escolher.Acho muito ridiculo essa de "por que eu acho imoral abortar ninguém pode". Se é uma questão de ser moral ou imoral, ou da alma não nascer ou não...Ninguém está errado nem certo. Temos que deixar os pais escolherem mesmo !
O que isso vai afetar a MINHA vida ?Se a pessoa abortar ?Nada...Por isso que acho que deve ser legal em todos os casos.

Mas eu não acho que eu abortaria...Isso já é outra questão.
Permalink Bia \\ 20.12.06 15:33:14

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