Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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Terra Blog

04.01.07

Permalink 15:40:55, categorias: Social. criado por letrasdespidas

Desigualdade Persistente: parte II

(a parte I está abaixo deste post)

Os índios não conseguem mais viver de forma tradicional, sofrendo com invasões de latifundiários, garimpeiros, trabalhadores sem-terra e tantos outros que assim como os indígenas desejam terra para si, seja para plantar, minerar ou cultivar sua cultura. Conflitos como esses tornam-se mais vorazes quando existe uma lei não cumprida que deveria resguardar os direitos coletivos e individuais de cada grupo
.

Já os negros almejam uma vida no mesmo ambiente que os brancos, porém não conseguem isto por causa da grande discriminação que sofrem, gerando violência que, direta ou indiretamente, afeta a todos: brancos, governo e inclusive aos próprios negros. As figuras do bandido, do traficante e do saqueador, além de terem o crime em comum, são normalmente atribuídas aos negros. Os crimes de agressão física, como homicídio, cometidos por eles são mostrados com maior destaque nos meios de comunicação, em relação aos brancos.

De que adianta ser a terra das misturas étnicas quando grande parte destas são excluídas e desrespeitadas? O Brasil não consegue conciliar interesses e muitos menos amenizar as brigas, pois as soluções que atacariam na raiz do problema, como proteção ao índio e diminuição da concentração de renda, são muito mais difíceis de serem postas em prática, optando por soluções superficiais, como assentar os indígenas em terras à mercê de invasores, implementar política de cotas para as universidades e aumentar o número de seguranças em determinados locais visitados pela elite.

De certa forma, todos sofremos com isso, não há vilão ou mocinho. O que faz um se sobressair não é a bondade de uns ou a maldade de outros, mas o sistema, a história e a sociedade que distinguem quem será pobre, quem será excluído, quem será marginalizado etc. Sofremos as conseqüências das atitudes discriminatórias dos detentores do poder: maiores responsáveis por mudanças significativas, sobrando a nós, população, unir-se em prol de todos, porém, os conflitos acontecem entre nós mesmos, pois não há unidade entre o povo quando um sujeito é rico e o outro é marginal. Etnias fragmentadas vítimas de variadas formas de violência: talvez seja isso que possa resumir a tal da diversidade cultural brasileira.

Se continuarmos assim, eternamente assistiremos às cenas de índios sendo queimados, ataques de crimes organizados e outros acontecimentos que insistimos em tachá-los com a velha idéia maniqueísta. A solução proposta não é unificar toda a cultura nacional, cuja tentativa apenas amplificaria as discórdias, mas fornecer o mínimo para uma vida digna: se os índios querem espaço, deixem que eles apliquem seu desenvolvimento sustentável; se os negros querem oportunidades de emprego, então punem aqueles que podem oferecer mas não o fazem por preconceito.

O passo inicial para uma evolução gradativa rumo ao fim das desigualdades sociais, culturais e étnicas é o respeito e tolerância, uma vez que cada etnia vive no seu tempo, no seu estilo, mas são obrigados a, de uma maneira ou de outra, adaptarem-se a um padrão adotado pela maioria. Tornar isso realidade é ao mesmo tempo um desafio e um grande avanço. Quem sabe assim poderemos mudar o que nos resume como país da miscigenação para algo como: diversas etnias vivendo a seu modo, porém em perfeita harmonia.

Postado por Adriano
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03.01.07

Permalink 17:17:17, categorias: Social. criado por letrasdespidas

Desigualdade Persistente: parte I

Desde a história nacional como a conhecemos, nosso país sempre foi marcado por miscigenações. Índios nativos, negros africanos, brancos europeus e outras etnias fizerem do Brasil um país no qual torna-se impossível a tarefa de definir quem é a verdadeira identidade brasileira. Todavia, mesmo com as mestiçagens genéticas e culturais, como nosso povo ainda não conseguiu aprender a conviver com as diferenças?

Estudos indicam que a população indígena está em crescimento, após vários séculos de redução. A princípio, essa notícia parece agradável, uma vez que demonstra a sobrevivência dos índios perante toda a “evolução” humana, porém, ao se observar o contexto em que eles se inserem, há um triste fato: como eles vão conseguir se adaptar a um Brasil praticamente dominado pela cultura ocidental? Como conseguirão terra para a sua vida original diante de tantas florestas destruídas para a prática da agricultura?

A Constituição indica que deve haver uma “preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”. Infelizmente as leis não são cumpridas, graças ao grande interesse avassalador e intolerante, aliado ao chamado “jeitinho” brasileiro, que faz com que certos grupos derrubem cabanas, apossando-se de suas terras, e dizimem populações nativas inteiras para implantar seu modo de produção.

Basta observar a situação das tribos indígenas hoje em dia, num mundo cada vez mais globalizado: perderam parte de seus costumes, como suas vestimentas. Para solucionar isso, não basta apenas delimitar terras, pois, como foi dito anteriormente, sua cultura não é respeitada. Além de espaço, eles precisam de proteção: deve existir alguma fiscalização, impedindo a exploração econômica indevida das reservas e garantindo a posse exclusivamente às comunidades indígenas. Entretanto, a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão governamental responsável pela tarefa, está definhando: possui 2.100 funcionários, menos da metade que possuía quando foi fundada, sendo que apenas um terço desse total está atuando nas terras indígenas, e, mesmo assim, questiona-se sua responsabilidade.

Como se não bastasse, não são só os índios que sofrem no Brasil, mas também os negros. Ser negro em nosso país significa ganhar a metade do salário dos brancos, viver cinco anos a menos e ter quase 50% de probabilidade de tornar-se pobre. Sete em cada dez moradores de favela são negros; para cada branco analfabeto, há dois negros que não sabem ler; se chegarem à escola, os negros passarão dois anos a menos estudando e, depois dos 25 anos, apenas um em cada cinco concluirá o curso superior.

O maior motivo para estas informações impressionarem é a existência de uma idéia de que quem sofre com isso são apenas os pobres, mas não se ressalta de que a maioria destes são negros. Assim, desde a abolição da escravidão, com a miscigenação e ausência de conflitos abertos, criou-se o mito de um país sem racismo nem discriminação, onde o negro faz parte da sociedade com a mesma importância que o branco, o que é uma grande mentira.

Essa exclusão gera margens para idéias arcaicas e preconceituosas, ao dizerem, por exemplo, que a justificativa para o número de negros analfabetos ser maior que o de brancos ocorre por incapacidade individual. Na realidade, eles passam por isso por causa das péssimas condições de vida a que foram e são submetidos, como a pobreza e a necessidade dos jovens abandonarem à escola para contribuir com a renda familiar.

Se com a escravidão os negros não tinham liberdade alguma, a situação não mudou muito após sua abolição. Eles deixaram de ser escravos, mas, sem uma educação básica não tiveram condições mínimas para recomeçar a vida. Não houve nenhuma medida de governo na época, como uma ampla reforma agrária, que de fato alterasse a injusta distribuição da riqueza nacional e permitisse à população negra o acesso a uma vida melhor. Na ausência de mão-de-obra escrava, o estado brasileiro não quis investir na melhoria da qualificação profissional dos antigos cativos. Preferiu incentivar em uma ampla migração européia. A partir de então, a discriminação contra os negros andou lado a lado com a fortíssima concentração de renda em nosso país. Logo, a maneira que os menos favorecidos encontraram para sobreviver foi através dos empregos informais, quando, não raro, na entrada ao mundo do crime.

(em breve a parte II)

Postado por Adriano
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28.12.06

Permalink 00:15:19, categorias: Social. criado por letrasdespidas

Cultura globalização nacionalismo

Eu estava pensando sobre cultura, globalização e nacionalismo, e como essas três coisas se juntam e viram uma coisa só. E como elas afetam umas as outras.

Muitas vezes eu penso que no Brasil as pessoas deveriam assistir mais o cinema nacional, e dar valor a ele. Entender que nosso cinema não tem toda a tecnologia por falta de dinheiro. Mas que a qualidade é boa. Muitas vezes eu penso que os brasileiros gostam de assistir somente os filmes holywoodianos ou os europeus. E o Brasil fica para trás com esses dois tipos de cinéfilos. Eu fico desgostada com isso, por que assim o cinema não cresce.

Mas, eu também penso que quando se trata de literatura a maioria das pessoas (da minha idade) não conhecem os escritores dos outros países, por que leêm apenas os clássicos brasileiros e os russos, ingleses, americanos, japoneses, franceses, austríacos, alemães etc ficam para trás. E não gosto disso também, por que acho que uma pessoa deveria ter conhecimento não só dos autores do seu país mas dos outros, e nunca esquecer que nós vivemos no mundo, não unicamente no Brasil.

Ao mesmo tempo que eu penso que nós brasileiros deveriamos dar valor a nossa arte :Cinema, fotografia, literatura, pinturas, desenhos, teatro etc... Eu acho que nós deveriamos conhecer a arte do resto do mundo. Então eu penso que hoje em dia, muitos tem acesso à cultura dos outro países por causa da globalização, muitos não tem acesso à cultura por causa da globalização e muitos esquecem o seu país por culpa da globalização.

Usar Nike, ler Stephen King, comer hamburger, assitir A guerra dos mundos, isso tudo vivendo no Brasil. Eu não sou contra nada disso. Embora não goste da Nike, nem do Stephen King, nem de carne nem do filme A guerra dos mundos. Acho que o fato das pessoas terem acesso à culturas diferentes só as deixam mais inteligentes. Mas nesse caso, talvez seja demais. Por que elas não estão tendo acesso à culturas diferentes, mas apenas uma cultura. Dos E.U.A nesse caso. Isso é o ruim da globalização. Ela não deixa você ter acesso a todas culturas somente, mas ela impõe de uma maneira ou de outra, a cultura do "império", do país mais forte. Pode até parecer ridículo mas reflita comigo. A China está virando a nova superpotência certo ? Tudo nos E.U.A é feito lá, muitas pessoas comem mais comida chinesa do que hamburgeres, todo mundo gosta daquelas letrinhas. Logo...Nós vamos assistir os filmes chineses, comer nos restaurantes chineses, aprender chines, ler Lao Tsé etc...O que isso quer dizer ? Que essa nova cultura vai ser a nossa cultura. E assim, nós esqueceremos a nossa, como esquecemos um pouco.

Nós não deveriamos aceitar tudo que vem da superpotência, mas sim, pegar um pouco, e pegar um pouco da outra cultura, e um pouco da outra..Para ter um conhecimento geral, uma visão ampla do mundo. Não esquecendo que nós também fazemos parte do mundo, então saber a nossa arte e história. E mesmo pegando um pouco dos outros, preservar a nossa própria cultura.

A globalização nos da acesso à cultura, mas essa mesma tira o acesso para as pessoas mais "fracas", enquanto eu posso entrar na internet e ler sobre algum país da África, um brasileiro está no sertão e não sabe nem mexer no computador.

O país não cresce por que ninguém compra das nossas marcas, nós damos dinheiro para a superpotência, e deixamos o país na mesma, enquanto o outro só cresce. A globalização nos deu um produto que vem de outro país, e nisso fez com que nós não comprassemos os produtos do nosso própio país. Então a fábrica de tênis de Minas está quebrando por que a fábrica da Nike, na China, está vendendo mais, e o mais incrível, a fábrica da Nike paga um centavo por hora e mesmo assim cobra caro, enquanto a fábrica de Minas paga um salário até que decente, com o produto mais barato, mas mesmo assim nós não compramos da fábrica de Minas, os sapatos "ZULU" (acabei de inventar) que dava emprego para um monte de pessoas, agora não da mais, por que a menina rica, que passou na USP e estuda bastante, compra só da Nike, e seu pai, acha lindo, "ela só gosta de coisa de qualidade". Mas depois da faculdade, ela não consegue achar emprego, e reclama do Brasil (como todos sempre reclamam), ela sai na rua, e é roubada, pelo filho do ex-empregado dos sapatos Zulu, que foi para São Paulo tentar trabalhar, então ela reclama de novo. E diz que o país não cresce por causa disso e daquilo, mas ela não sabe, que se ela tivesse ido na loja e comprado outro tênis talvez isso não tivesse acontecido, por que o namorado dela não ia se sentir obrigado a usar um tênis da Nike também, e a irmã dele, e a amiga da irmã, e a prima da amiga da irmã, etc...

Eu não sou uma pessoa muito patriota, mas nesse caso é uma coisa óbvia, nós, que temos acesso à cultura, que podemos mudar pelo menos um pouquinho o país, e fazer com que essa globalização tenha um efeito mais bom do que ruim, devemos dar valor a nossa cultura, nossa música, nosso cinema, nossas camisetas, nossos sapatos ! Estar globalizado não significa desprezar seu própio país, nem desprezar os outros, pelo contrário, é conhecer um pouco de todos, e respeitar todos.

Por isso que eu acho que devemos ler clássicos russos, brasileiros e ingleses. Devemos assistir filmes brasileiros, americanos e franceses. Não digo que devemos gostar de todos, digo apenas para não desprezarmos nenhum. Há filmes americanos RUINS ao extremo ! Mas há filmes bons ! Como há filmes brasileiros ruins e bons. Mas hoje em dia as pessoas ou falam que os filmes americanos são ruins e vazios, ou que são ótimos e que os brasileiros não chegam nem perto. Essas pessoas não estão abertas, elas tem uma visão fechada sobre cultura, e acham que sabem de tudo. Ou o nacionalismo as deixam assim, ou o excesso de globalização (se é que existe isso, não tenho outra maneira de falar). São poucos os que acham no meio de todas essas informações um meio termo. Onde há a preservação da cultura do Brasil, um pouco de patriotismo, e o conhecimento sobre outros países e a cultura deles.

Ps: No caso da Nike, a fábrica é na China, mas os donos (americanos) que ganham o dinheiro, enquanto uma marca qualquer em Minas (Minas tem uma cidade que o apelido é Cidade dos sapatos por que tem muitas fábricas e novas marcas de sapatos) as fábricas são em Minas, e as pessoas de lá que ganham o dinheiro. Então elas não exploram nenhuma outra nação mais fraca, e dão emprego para os brasileiros, fazendo com que o Brasil cresça, e se o Brasil cresce, todos brasileiros ganham com isso.

Pps: Um pouco da minha mensagem foi: É claro que é ruim ter presidentes corruptos, mas todos nós (que temos o privilégio de ter acesso à cultura) podemos fazer o Brasil crescer, fazer o mundo crescer, com atos relativamentes simples. Desde reciclar uma latinha, até ser voluntário numa escola no norte do Brasil. A globalização está aí, a internet está aí, nós que temos que ter consciência do que fazer com ela. Uns preferem comprar uma camiseta da Diesel, outros fazer doações para organizações que ajudam crianças da África.

Postado por : Bia

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20.12.06

Permalink 11:04:44, categorias: Social, Ciência. criado por letrasdespidas

Aborto: discussão interminável

O conflito da permissão à prática do aborto, talvez um dos mais polêmicos da atualidade, atravessa séculos e ainda não se estabeleceu. O seu impasse envolve questões religiosas, éticas, biológicas, sociais etc, talvez por isso seja tão complicado chegar a um consenso. Vou dizendo, antes de tudo, que apesar desse blog ter um aspecto jornalístico, ele não foi feito para ficar informando os leitores, pondo os dois lados opostos e deixando que ele pen-se melhor sozinho. Não, eu não vou ser imparcial, colocarei porque acho que o aborto deve ser permitido.

No caso de estupro e risco de morte à mulher, já é aceito fazer aborto. Mas essa prática deve ser estendida, deixando que os pais escolham interromper a gravidez ou não. Não po-demos esquecer que mesmo com os métodos contraceptivos existe a probabilidade – pe-quenas, mas existe – de falhar. Neste caso, a gravidez indesejada é muito mais cruel, pois modificará de forma brutal a vida dos novos pais, que podem não ter condições para cuidar da criança, e isso gera tantos problemas futuros.

Os fanáticos religiosos podem dizer o que quiser. Podem falar que aborto é crime porque estará impedindo uma alma de se manifestar no mundo terreno, ou que estaremos desobe-decendo a um dos Dez Mandamentos de Deus, que é o “não matarás”. Não importa o que eles disserem, será um falso moralismo. Eles adoram mostrar como nós, seres materialistas que não oramos antes de dormir, somos os antiéticos da humanidade. Mas deixar um bebê nas mãos de pessoas que não têm condição nenhuma de dar uma vida digna, garantindo as condições mínimas de sobrevivência e formação cultural básica, já é demais.

Se mesmo casais pobres que querem ter um filho já suam para dar seu sustento, imagine aqueles que não estão preparados. Daí ocorre noticiais desumanas como vemos na televi-são: mãe que abandona o filho recém-nascido em lata de lixo, ou que deixa boiando em lagoas, e tantos outros fatos que só fazem a gente ter uma certeza: tem que estar disposto e ciente das responsabilidades para criar um filho, ainda mais na nossa sociedade moderna onde filhos são associados a gastos.

Questionar a validade do aborto, tendo em vista o momento exato em que a vida começa, é ser um tanto superficial. Concluir que a vida começa no instante da fecundação, ou quan-do o óvulo, já fecundado, junta-se à parede do útero, ou quando o coração do feto começa a bater, ou quanto se iniciam atividades cerebrais etc, é muito complicado, há diversos pontos de vista a avaliar sobre o início da vida. Numa discussão de tamanha magnitude, deve-se projetar para o plano do real, fora da barriga da mãe e ver que a questão envolve esferas sócio-econômicas que também devem ser levadas em conta e, por isso, só a mãe e o pai podem dizer se querem ou não ter o filho. Não estou falando que o médico deve dizer: “Ah, vocês são pobres? Então me desculpem, vou abortar seu filho”. Não, nada disso. Existem pais que não tem muitas condições mas conseguem educar muito bem o seu filho. Essa questão é tão relativa que por isso deve ficar a critério dos pais.

Recentemente, o jornal A Folha de S. Paulo publicou uma notícia de um caso de anencefa-lia. Essa doença é caracterizada por problemas no cérebro do feto, interrompendo seu de-senvolvimento. No caso da Folha, apresentou uma menina cujo córtex cerebral não foi de-senvolvido. A conseqüência disso: caso o feto se tornasse uma pessoa, ela não seria capaz de pensar nem de sentir, apenas controlaria sua funções vitais básicas, como batimentos cardíacos, respiração etc. O que você faria se soubesse que seu filho nasceria anencéfalo? Eu abortaria tranqüilamente, decidido de que, mesmo deixando de ter um filho, seria a me-lhor escolha, afinal, o que é uma pessoa anencéfala?

Os cientistas achavam que a menina morreria dentro da barriga da sua mãe ou que, se vi-vesse, não duraria algumas horas. As comunidades locais dizem que ocorreu um milagre: a menina já está há mais de 25 dias viva. O nome dele é Marcela de Jesus, em homenagem ao Padre Marcelo Rossi, segundo a mãe dela. Todos estão comemorando e ela virou símbolo de antiaborto. Agora eu pergunto: não seria justamente o contrário? Qual é a glória de ter uma criança sem cérebro, praticamente? Alguém que não pode pensar, sentir, nem fazer nada, o que é então? A menina não terá liberdade nenhuma, viverá eternamente dependente dos cuidados de sua família, não aproveitará o mundo, não criticará os erros, não viverá e pronto! Viver não é só respirar. Se for para ficar em estado vegetativo, qual é a vantagem da vida? Para mim, nenhuma. Se eu fosse anencéfalo, me abortem, por favor!

Como forma de respeito à mãe da menina, os médicos perguntaram se ela queria interrom-per a gravidez, lá pro quinto de mês como gestante. Como a mãe negou, então arque com as conseqüências, isso se a menina viver por muito tempo. Já que acreditou no milagre de Marcela viver quase um mês, então fique acreditando no milagre de surgir um cérebro do nada na cabeça dela.

E depois vem os conversadores querendo insinuar que nós somos imorais? As cartas estão todos à mesa, basta ver qual caminho você prefere. Eu escolhi o caminho da liberdade mesmo tendo que fazer alguns sacrifícios, mas tem quem prefere ficar no ideal retrógrado que enxerga, de maneira limitada, apenas um pedaço da questão: ‘o agora’. Os liberais enxergam ‘o depois’.

Assim como não podemos impor uma decisão tão forte quanto o aborto sobre os pais, não podemos tirar deles essa possibilidade. Proibindo a prática abortiva, aumenta o número de convênios não autorizados, presentes nas clínicas compostas por pessoas não especializa-das. Estas praticam o chamado “aborto caseiro”, que pode ser nocivo à saúde do feto e da gestante. Nascer sem estar planejado ou preparado, com seqüelas, sem cérebro e sem no mínimo os primeiros momentos da vida como ser vivo digno é bem pior do que interromper o desenvolvimento de células. Por isso, não aborte o aborto. Ele estabelece um direito a todos, que não vivemos mais na barriga da mamãe e sabemos como essa vida é difícil.

Postado por Adriano

Obs: você deve ter reparado que há alguns hífens quebrando algumas palavras. É por causa de um erro de formatação, mas tudo bem, dá para entender mesmo assim.
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18.12.06

Permalink 11:54:26, categorias: Social. criado por letrasdespidas

Excesso de livros e escassez de leitura

O brasileiro lê pouco. Isso todo mundo sabe, além de ser constatado freqüentemente nos nossos meios de comunicação. Entender a falta de leitura é uma análise muito mais profunda do que dizer “ele não lê porque é preguiçoso”. As causas desta deficiência são muitas. Tentarei, neste artigo, relacionar algumas que considero as mais importantes a serem supridas.

Escolas de má qualidade

Livros, de uma forma geral, exigem uma base de cultura letrada para seu entendimento. Se um jovem não vem de uma escola com bom ensino, dificilmente conseguirá entender um livro do Machado de Assis. E mesmo tendo uma boa formação cultural, pode ser que tenha dificuldade na interpretação das obras nacionais, principalmente as clássicas, o que mostra que o problema vai além da educação básica. Mesmo assim, esta contribui em grande peso.

O fato é que as escolas, principalmente as públicas, estão carregadas de professores que também não têm cultura letrada. Como um professor vai lecionar uma boa aula de Língua Portuguesa se ele escrever “proficional”, “a gemte”, “geito”? Estes professores também passaram por uma escola de má qualidade, e forma aquele velho ciclo vicioso que todos conhecem: o professor não sabe, então o aluno não aprende; depois, o aluno vira professor e vai dar aula, mas como não sabe, o seu atual aluno também não aprenderá...

Enfim, os problemas no ensino brasileiro são muitos, chega a ser tema para outro artigo. Quem quiser ler, vá na categoria Social e procure por um artigo um pouco mais antigo que se chama “Ensino público está na privada”.

Estímulo à leitura

Com certeza, os projetos de incentivo à leitura que nós todos tivemos na escola, sentando em círculo e revezando a leitura, não são suficientes para o aluno sair dali e comprar um livro. Hoje em dia, é necessário um estímulo mais forte. Quem é capaz de mudar regras, derrubar presidentes, ditar moda, acabar com costumes? A mídia, é claro. Porém, aí ocorrem alguns impasses básicos.

Vocês acham que os meios de comunicação desejam cidadãos pensantes? É lógico que não! Senão estes até questionariam sua programação, vinculada à uma população de baixo nível intelectual que sente-se satisfeita ouvindo fofocas de artistas, intrigas entre apresentadores e imagens do casamento de não sei quem. Slogans como “Cultura, a gente vê por aqui” da Rede Globo, ou “Desligue a TV e vá ler um livro” da MTV não adiantam em nada.

É por isso que os meios de comunicação em massa lucram. Como no mundo atual tudo é movido a lucro, pense onde fica a maior parte do ibope. Disparadamente são nas novelas. E o que são as novelas? Um teatro repetitivo onde não há esforço para pensar, você não precisa mastigar o que está vendo, está tudo pronto para comer.

Elitização da cultura

As editoras elevam o preço dos livros a patamares inacessíveis à população de baixa renda e até mesmo para a classe média, que mesmo tendo dinheiro para comprar, sente-se incomodado com o absurdo dos preços. Isso se a classe média for comprar um livro, talvez esteja mais interessada em um celular novo ou em um carro zero quilômetros, mas isso não vem ao caso.

Tânia Pellegrini, formada em Letras pela Universidade Federal de São Carlos, escreveu um artigo com o nome “Ficção brasileira contemporânea: ainda a censura?”, dizendo que com o fim da ditadura militar e, conseqüentemente, o fim da censura política, nós entramos numa época em que vivemos algo como uma censura econômica, pois as editoras aproveitaram que podem vender qualquer tipo de livro e puseram seus preços a níveis elevados. “Você pode comprar o que quiser, se tiver dinheiro para o que eu te ofereço”. Leia um pedaço do que Tânia Pellegrini coloca no artigo:

“O produto cultural foi acentuando cada vez mais seu caráter de mercadoria, a ponto de se tornar lugar-comum dizer que o Estado tornou-se, então, o grande mecenas da cultura, aquele que paga, mas exige fidelidade em troca. Em suma: os interesses gerais do Estado e dos novos empresários da cultura passam a ser os mesmos; a questão da cultura é conjuntural, enquanto a formação e o fortalecimento de um mercado integrado – que inclui os bens culturais – entra como peça da nova estrutura econômica que se desenvolve no país.”

Esta “nova estrutura econômica” a que ela faz referência é parte da transição durante a ditadura militar e a nova república.

Abismo entre literatura infantil e adulta

Aqui no Brasil não há muitos autores que escrevam livros de literatura infantil ou infanto-juvenil que consigam colocar uma carga cultural intrínseca de maneira a estimular o novo leitor a ler obras mais “profundas”. O Paulo Coelho, por exemplo, seria um bom pontapé à leituras mais difíceis, mas, além dele, não há muitos conhecidos. Os autores mais lidos, neste aspecto, são os estrangeiros, como: JK Rowling e “Harry Potter”, que serviu como grande incentivo à leitura; Tolkien com “O Senhor dos Anéis”; Dan Brown e “O Código Da Vinci”; Agatha Christie etc.

A revista Superinteressante, outra forma de entretenimento que também serve como ponte à novas leituras, publicou um artigo com o nome “Autores que escrevam sobre nada”, numa edição de fevereiro de 2005, de um estudante chamado Bruno Miquelino da Silva, onde ele fala:

O ser humano carece tanto de momentos de reflexão e sapiência quanto de entretenimento de descanso. Mas nossos críticos literários parecem não ver isso e continuam crucificando todo e qualquer livro que não traga ‘um algo a mais’ ao leitor. E nossa população continua a ler menos. As novelas estão aí para provar. Cada vez mais aumenta o número de telespectadores que assistem a elas na ânsia de se entreterem com uma grande quantidade de nada.”

Ele propõe que aumente o número de autores nacionais que não falem sobre coisas muito importantes, mas que sirvam para a pessoa sair dos “Três Porquinhos” e vá para “Sagarana”. O único perigo dessa ação é que a população só fique no nível básico de leitura, sem progredir aos poucos.

Bom, considero estes quatro aspectos que coloquei ao longo do texto os mais importantes. É claro que há outros, como a vida moderna cheia de tarefas e atribulações que tiram o tempo de dedicar-se à leitura, mas tentei aprofundar mais naqueles. Infelizmente nós não podemos fazer muito para incentivar à leitura. Fico impressionado quando entro no Orkut, por exemplo, e veja no perfil de alguém de classe média ou média alta escrito: “Não gosto de ler”, ou “Não consigo acabar de ler um livro”. É realmente assustador saber que aqueles que têm acesso e oportunidades à leitura ignorem isso. Mas fazer o quê?

Postado por Adriano
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