Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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Terra Blog

01.12.06

Permalink 20:15:41, categorias: Economia. criado por letrasdespidas

O País do Asfalto

Quase 60% da matriz de transportes brasileira são compostas por rodovias. As ferrovias e hidrovias somam cerca de 40%, e para o dutoviário sobra uma porcentagem ínfima. As estradas interligam diversos pontos do país e são as maiores responsáveis pelo escoamento de produção, rumo à exportação. Para analisar a nossa matriz, precisamos compreende-la por alguns pontos:

Por terra

O Brasil é o país do asfalto. Isso não é muito positivo, pois a expansão e manutenção das estradas são caras, além de ser difícil manter em boa qualidade e sob controle tantas rodovias que existem em um país de dimensões continentais como o nosso. Conseqüências: buracos. Parte da produção sofre atraso por causa da grande quantidade de buracos que existem em nossas estradas, trazendo insegurança para o motorista que conduz o caminhão e aumento dos preços, que recai sobre o consumidor, uma vez que se gasta mais para levar o produto de um lugar a outro do que o normal em um sistema de qualidade.

O governo, para tentar amenizar estas dificuldades, iniciou neste ano a Operação Tapa-Buraco. Por enquanto, atinge mais da metade das estradas com problemas. Porém, a má situação do sistema rodoviário ainda traz prejuízos para a economia nacional: cerca de 78 bilhões de reais não são ganhos todos os anos, devido o prejuízo. Além disso, o Brasil torna-se menos competitivo no mercado externo, por apresentar impostos altos tentando cobrir estas mazelas.

A dependência de rodovias é um problema histórico. “Governar é construir estradas”, dizia o presidente Washington Luís, da República Velha. A partir de 1928 (durante seu mandato) as rodovias começaram a crescer bem mais do que as ferrovias, antigamente utilizadas para o transporte de café, o grande produto tupiniquim. E assim foi indo durante os anos. Quando o presidente Juscelino Kubitschek trouxe as indústrias automobilísticas para o país, isso intensificou o aumento do sistema rodoviário, em detrimento do ferroviário. Desde então, nada foi significantemente feito para a melhoria das nossas locomotivas.

O transporte por terra é indicado para distâncias curtas, pois se gasta relativamente bem para transportar pequenas quantidades de cargas, suportadas pelos caminhões. Assim, o Brasil deveria diminuir o uso excesso desse meio, ou, no mínimo, consertar as nossas linhas asfaltadas que estão em frangalhos.

Por trilho

O problema inicial: há poucas linhas ferroviárias. Se observar o mapa das redes de transporte do país, verá que a maioria das linhas vai de dentro do país para o litoral. Tudo bem se preocupar com as exportações, mas essa aparência é muito colonial. Há poucas linhas que servem para integrar as regiões do país, o que seria uma alternativa ao uso excessivo de estradas. Ainda mais porque os custos com os trens não são tão altos se comparados com a quantidade de cargas que podem transportar. No entanto, quem tem coragem para ressuscitar o sistema ferroviário?

As privatizações dominaram as ferrovias. Segundo o Ministério dos Transportes, 100% da matriz ferroviária foi privatizada. Isso foi feito para reduzir a bomba na mão do estado, mas as empresas privadas não investiram tanto quanto foi prometido. Umas das dificuldades enfrentadas foi o prazo de concessão, ou seja, o tempo em que podem explorar comercialmente os trechos, que muitas vezes não é suficiente em vista do tamanho da encrenca.

Por água, por dutos e por ar

O Brasil tem uma extensão muito grande de rios, o que justificaria uma ênfase no transporte hidroviário. Ele é mais barato e transporta uma quantidade enorme de cargas. Talvez, o mais caro de tudo isso seja a construção que barragens e eclusas, que devem ser estudadas para que não causem um desequilíbrio ambiental, os populares impactos que o mundo conhece muito bem. Indicada para longas distâncias, porém com sua participação reduzida na matriz de transporte. Outro empecilho: há poucos portos, fazendo com que certas cargas fiquem em filas esperando para ser transportadas, ou seja, o problema do atraso novamente.

Quanto aos dutos, não há muito que falar. São utilizados para o transporte de gás natural, petróleo e seus derivados. Já o transporte aéreo, abastecido pelos aeroportos industriais, é uma alternativa para o transporte de bens duráveis ou de produtos perecíveis, uma vez que transporta pouca carga, mas com uma rapidez inigualável.

Em suma, para o melhor equilibro de nossa matriz de transporte, o Brasil deve principalmente se apoiar sobre o tripé rodoviário-ferroviário-hidroviário. Imagine uma situação onde um caminhão leva um produto de onde foi produzida até uma estação de trem, então a locomotiva leva até os portos e daí vai para outros lugares do mundo. Seria ideal, não?

Todavia, como as coisas não andam, somos obrigados a ver mais uma daquelas medidas superficiais: a Operação Tapa-Buraco que citei lá em cima. O governo pensa que tapar buraco é a solução. Aliás, o que nesse país não é feito na base de tapar buraco? O que deveria ser refeito são as bases da nossa matriz de transporte, tampouco ele sabe que aí está o problema, ou se sabe, utiliza-se das soluções imediatas, fechando os olhos para o verdadeiro desafio. Aliás, o que nesse país não é feito cegando a realidade?

Por Adriano

Obs: os dados foram retirados do Almanaque Abril, 2ª edição de 2006. Por sinal, vários dados de outros textos também foram retirados de lá (não dá para guardar tudo de cabeça, né?)


Comentários (2)

21.08.06

Permalink 20:00:56, categorias: Economia. criado por letrasdespidas

O homem tropeça na mesma pedra

Olá a todos os leitores,

É incrível ver como o homem, durante toda a sua evolução, cometeu diversas vezes os mesmos equívocos. Dizem que errar é bom porque aprendemos com os erros. Isso é verdade, o homem sabe o que a poluição está causando, sabe o que o desmatamento pode causar; sabe de tudo que está fazendo e suas conseqüências! Mas ao mesmo tempo não se modifica, não aplica o seu aprendizado, é como se estivesse tropeçando na mesma pedra, sabendo que está ali, no mesmo lugar.

Atualmente, assistimos a uma grande evolução da China, que "em 30 anos será a maior potência econômica mundial". Aparentemente eu achava isso legal: ver como um país pode se desenvolver tanto em tão pouco tempo. Porém, ao assistir um documentário na minha aula de geografia e me informar mais sobre o assunto, descobri a quantidade de coisas que a China teve que fazer para se adaptar ao seu desenvolvimento: derrubar patrimônios históricos (destruindo a identidade de séculos), aumentar o número de ruas (causando uma poluição visual e até sonora, com os automóveis em tráfego), ampliar suas indústrias (e conseqüentemente seus impactos ambientais); paralelamente a tudo isso, muitos crescem em detrimento de outros, aumentando a desigualdade social; ou será que todos são beneficiados pelo desenvolvimento? Muito pelo contrário, esse desenvolvimento vem para poucos. Só para ter uma noção: o PIB per capita da China é menor que o do Brasil, no entanto, sua população é beeem maior!

Por trás de toda e qualquer evolução, há algum sacrifício, alguma forma de pagamento, alguma destruição. Isso ocorre porque em determinados setores que o homem procura desenvolver, ainda não foi descoberta uma maneira saudável de evoluir. Mas será que há uma maneira saudável de evoluir em todos os setores? Para ampliar a agropecuária, temos que passar por cima dos ambientes naturais. Para melhorar o desempenho de uma máquina, temos que colocar mais combustível, este, por sua vez, aumenta os danos ao meio ambiente.

O petróleo é um tema muito discutido, por não ser um recurso renovável, aumentando suas chances de esgotamento. As previsões não são muito favoráveis quanto a duração dele, porém existe a falsa esperança de que encontrarão novos poços de extração. E mesmo que encontrem, está na hora de pensar em outra fonte de energia, veja só o impacto que o petróleo causa! Na hora de sua retirada, há o perigo dos vazamentos, que matam muitos peixes e aves; na hora de serem utilizados seus derivados, como a gasolina, os resultados das reações de combustão geram muitas substâncias nocivas a nós e ao equilíbrio natural do planeta. Não posso negar que muitos se preocupam com fontes alternativas, mas até agora os investimentos nestas são muitos baixos, sendo que há uma infinidade de opções para serem pensadas e aplicados da melhor forma para cada região do mundo: temos a eólica, solar, de marés, biodiesel, geotérmica e muitas outras.

Não sou aquele protecionista radical, que gostaria de abandonar todas as cidades e andar nu em algum lugar isolado do mundo, se ainda existir. Sei que tem coisas que não tem jeito de não destruir, graças à evolução do homem. Por isso defendo as reservas naturais e parques ecológicos, talvez eles consigam guardar o que ainda resta e protegê-lo para amenizar os danos humanos. Mas é que além da ganância da evolução, há ainda a ignorância do homem, que deveria pensar nas futuras conseqüências dos seus atos antes de praticá-los. O que observamos até os dias de hoje é que o homem só começa a tomar providências quando percebe os resultados das suas ações, sendo que isso tudo deveria ser pensado antes, colocando em práticas políticas que já construam algo de maneira com que o impacto seja menor logo de início.

A Amazônia é a maior prova disso. Quando pensavam na interiorização do Brasil, estimularam os novos “bandeirantes” a irem para o interior de qualquer maneira. Deu no que deu! Abusaram tanto que a Amazônia não tem como ser a bela mata exuberante de antes: já está em processo de degradação irreversível. Agora, alguns lutam para tentar retardar a sua morte, enquanto outros continuam retirando madeira ilegalmente, traficando animais... se antes de estimular a interiorização, já tivessem pensando em maneiras de poder controlar a quantidade de migrantes e de práticas que se instalaram lá, com uma fiscalização rigorosa e intolerância a qualquer “espertinho” que começasse a sacanear a tudo e todos, talvez poderíamos estar com uma Amazônia bem melhor, mais conservada e usada com ponderação e de um jeito saudável, praticando o desenvolvimento sustentável.

Se houvessem uma centena de florestas amazônicas pelo mundo, todas estariam tão ruins quanto a única existente, já que o homem sabe que está fazendo tudo errado, sabe que vai dar tudo errado e erra de novo ao não praticar o que aprende com o erro. Por isso que digo que ele tropeça na mesma pedra. A China está brilhando, mas isso agora, eu quero ver só daqui a alguns anos as manchetes: “Número de emigrantes aumentam na China por causa da grande quantidade de gases poluentes que intoxicam crianças recém-nascidas”, “China entra em guerra com outros países para conseguir mais fontes de energia”, “Atentados aumentam graças à fome que assola enorme parcela da população”, “A falta de água e saneamento mata um a cada 3 minutos”.

E não é só a China, muitos procuram alcançar a evolução de maneira mais rápida, mais eficiente. Dizem que pensam nos seus impactos, mas parece que não. Basta enxergar a que ponto chegamos em qualquer área que você escolher observar. Ai de mim que ainda sou jovem! Terei bastante tempo pela frente para enxergar e dar risada chorando (não de felicidade, mas de tristeza) das quedas do homem.Até agora, o homem tropeça naquela pedra, mas consegue se levantar, talvez tenha um dia em que ele não conseguirá ter mais forças para agüentar a queda. E este dia não deve estar muito distante.

Postado por Adriano

OBS: o tropeçar do homem na mesma pedra, neste texto, está relacionado à destruição causada por ele, e não a todos os aspectos. Por exemplo, em design, o homem aprende com os erros e tenta sempre formular algo melhor. Não fiz essa ressalva para não diminuir o impacto do texto, por isso coloquei como observação, evitando generalizações.
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