Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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23.12.06

Permalink 22:20:08, categorias: Artes. criado por letrasdespidas

Surrealismo

"Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima". André Breton, Manifesto Surrealista (1924).

O que é "surrealismo" ? Surrealismo é um movimento, na literatura, artes plásticas, fotografia e cinema. É a liberação da mente, é a arte do inconsciente e subconsciente, dos nossos sonhos. Por isso que foi tão afetada pelos estudos do Freud, que estudava justamente isso, o inconsciente, sonhos etc...Muitas pessoas pensam no Dalí quando se fala em surrealismo. Ele não foi o único, nem o primeiro surrealista, mas foi um grande pintor, cineasta e fotógrafo. Mais conhecido como pintor. Embora ele tenha começado como um cubista, ter influências dos Mestres da Renascença, experimentado com dadaísmo, ele é mais reconhecido (com toda razão) pelo seu surrealismo.

Nos termos de Breton,o surrealismo trata de 'resolver a contradição até agora vigente entre sonho e realidade pela criação de uma realidade absoluta, uma supra-realidade'. O surrealismo aparece como uma alternativa do cubismo, e dadaísmo, que surgiram após a 1ª Guerra Mundial, com o intuito de criticar a guerra, a burguesia, o capitalismo, a forma de vida e o "falso raciocínio" os surrealistas fazem uso de variados canais de expressão - revistas, manifestos, exposições etc. - mobilizando diferentes modalidades artísticas.

As colagens e assemblages constituem mais uma expressão caraterística da produção surrealista, ancorada na idéia de acaso e de escolha aleatória, princípio central de criação já para os dadaístas. A célebre frase de Lautrémont é tomada como inspiração forte: 'belo como o encontro casual entre uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecção', isso é, objetos desconexos, numa junção totalmente sem sentido, daí vai a idéia do "não real", dos impulsos, criatividade, liberdade, imaginação e incoerência.

A arte surrealista é contra a repressão dos instintos (Freud), e contra a dominação burguesa (Marx). É considerado o movimento mais forte e controverso do período entre guerras, tendo se espalhado pelo mundo inteiro e influenciado várias gerações. Alguns dos surrealisas são Hans Arp, Joan Miró, Kurt Schwitters, Marcel Duchamp, Max Ernst, Salvador Dali, André Masson, René Magritte...

Esse é um quadro do Dalí

André Breton, desde o começo queria afinar a arte com política. Em alguns lugares os surrealistas se importavam mais com a arte, em outros com a política. Mas os surrealistas aderiram ao comunismo e anarquismo (mais ao comunismo). E em 1925 eles já saiu da revista surrealista a adesão do Movimento ao Comunismo. A divisão entre surrealistas e dadaístas é caracterizada também como a divisão entre comunistas e anarquistas, sendo os surrealistas comunistas.

Como o surrealismo era composto por tantas pessoas, tão diferentes e com personalidades diferentes, o surrealismo "se dividiu" um pouco, de um lado os artistas mais próximos ao dadaístas e eram mais niilistas, contrários a todos os conceitos de arte tradicional (exemplificada por Marcel Duchamp). Do outro lado os artistas que ainda estavam sendo guiados por valores estéticos (que pode ser representada, por exemplo, por Salvador Dali e Magritte).

"SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral."(André Breton - Manifesto Surrealista (1924))

Este movimento é a maior acusação levantada contra a cisão, historicamente provocada, entre Razão e Paixão no Ocidente.

Em 1938 Leon Trotski e André Breton se encontraram na Cidade do México, esse encontro resultou no documento "Por uma Arte Revolucionaria Independente", cuja versão final foi elaborada por Breton e Diego Rivera, com a aquiescência de Trotski. O documento é grande, como o Manifesto Surrealista, mas é muito bom...Vou colocar um trecho:

"11) Do que ficou dito decorre claramente que ao defender a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita "pura" que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Não, nós temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode servir à luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior."

Quadro do Magritte

Postado por : Bia

 

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19.09.06

Permalink 23:28:20, categorias: Literatura, Artes. criado por letrasdespidas

A Casca de Caeiro

Hoje fui assistir à peça "Pessoa de Caeiro". A montagem vista nesta noite de terça teria como objetivo transmitir ao público a essência do heterônimo de Fernando Pessoa, passar para a platéia , utilizando o recurso teatral ,toda a magnificência do mundo deste ilustre Heterônimo considerado, pelo próprio Pessoa, como o grande gênio de sua poesia.

A peça, dirigida e interpretada pelo ator Jefferson Brito, tentou passar um pouco de cada um dos mais famosos Heterônimos de Fernando Pessoa. Entre estes, o engenheiro Álvaro de Campos, amargurado e pessimista, descreve em sua poesia as maquinas e a agitação da cidade. Sua obra é um desabafo febril de um futurista inquieto.

O Médico Ricardo Reis, mais erudito de todos, é um conservador que insistia na defesa dos valores tradicionais da literatura e da política. Através do neoclassicismo Ricardo mostra-se atraído pela natureza, sendo um fiel discípulo de Caeiro.

Alberto Caeiro, o gênio de Fernando Pessoa, é a personificação da completa naturalidade, em todos os sentidos. Sua aversão ao pensamento científico, à metafísica e ao simbolismo fazem dele um homem totalmente voltado aos elementos que o cercam. Ele não diferencia o ser humano da pedra, o rio da árvore, o pássaro da folha. Segundo o camponês seu realismo sensorial o faz tender ao desejo de não pensar e ao desejo de não desejar. A poesia de Caeiro é a mais simples de todas, tanto em relação ao estilo quanto ao vocabulário, refletindo assim seu modo de vida rústico e sua falta de ilustração.

Sozinha, a personalidade de Caeiro é profunda o suficiente para uma análise de mais de uma hora de peça como é também a dos outros dois heterônimos. A peça vista hoje não passa de um apanhado extremamente superficial das características básicas de cada um dos três heterônimos, focalizando trechos de seus principais poemas. A produção sonora e visual enriquecem a montagem, mas a sua falta de conteúdo e de focalização no heterônimo de Caeiro fazem a peça ser apenas um show de interpretação do ator baseado nos heterônimos do poeta modernista.

Cada uma destas personalidades criadas por Fernando Pessoa apresenta peculiaridades psicológicas diversas que merecem analise profunda e detalhada. Ao propor um trabalho baseado na obra de um célebre poeta outrora comparado à Camões, que este seja um bom trabalho para não desmerecer a genialidade do grande poeta lusitano.

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...” (Alberto Caeiro)

Postado por Mariana

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28.07.06

Permalink 19:19:51, categorias: Artes. criado por letrasdespidas

Anti-arte antes e arte agora

Olá a todos e obrigado por acessarem o blog,

Estava pensando nesse assunto de Arte. Acho que fui estimulado pelo passeio no MASP, onde eu vi coisas que não estou acostumado a ver no dia-a-dia. Quais seriam os limites da arte? O que seria a anti-arte? Existe essa tal de desconstrução artística? Aliás, a arte tem padrões ou é livre?

Não sei quantos notaram, mas sempre que aparece um movimento novo na história, e se este for rejeitado pela população, é chamado de anti-arte, por fugir dos padrões que haviam até então, por desconstruir as idéias que as pessoas tinham; sair do plano real. Veja a Semana de Arte Moderna em 1922: foi extremamente rejeitada pelo povo, que ficou surpreso (e indignado) com as obras que fugiam totalmente do que estavam acostumados a ver. Hoje, a Semana de Arte Moderna, e o movimento modernista como um todo fazem parte da nossa referência de arte. É um dos nossos padrões artísticos. Em outras palavras, o que era "anti-arte" passou, com o tempo, a ser "arte".

E isso aconteceu em vários outros episódios da história. Outro exemplo: o Romantismo esteve bastante tempo presente, dominou nos anos 1800. Quando começou a aparecer o Realismo-Naturalismo, o que antes era consagrado, passou a ser criticado. Ou seja, a "arte" virou uma forma de "anti-arte". Atualmente, olhando para o passado, ambos são artes, tanto o Romantismo quanto o Realismo-Naturalismo, já que normalmente "anti-arte" é aquilo que inova, que traz uma novidade, a qual não é aceita à primeira gustação.

Justamente essa aversão ao novo que faz com que tantos detestem a Bienal das Artes. Há dois anos, eu fui nessa Bienal, que estava exposta no Parque do Ibirapuera. Logicamente, me assustei com as obras "doidas": fusca pendurado no teto por fitas coloridas, baratas mortas dentro de uma caixa, um barco de ponta-cabeça, um navio ao lado de um sofá, um vídeo de uma mulher nua e deprimente se contorcendo na cadeira etc...

Um outro exemplo (confesso que tosco) de anti-arte: o título desse post. Olha que sonoridade bizarra! "Anti-arte antes e arte agora"... todas as palavras com "a", parece um trava-línguas. Muitos à primeira lida devem ter odiado ("Nossa, que título horrível"), mas agora estão vendo que tem sentido! Daqui a pouco não se importarão se eu colocar títulos como: "Meu coração por ti gela", "Aí é eu ou é eu aí?"... deu para notar a noção do que chamados de anti-arte. Essa, pelo menos, é a visão que eu tenho: anti-arte é arte. Quer um chavão artístico? A anti-arte de hoje é a arte de amanhã.

Mas cuidado, não podemos generalizar! Se você quebrar um pote de vidro e escrever seu nome ao contrário nos cacos pode ser arte para você, mas eu com certeza vou chamar de anti-arte. Uma das definições de arte é que tal obra apenas é algo "artístico" se tiver uma mensagem, uma intenção do autor. Porém, os seus cacos nomeados, para mim, podem não fazer sentido algum, direi "É melhor jogar no lixo antes que alguém se corte", mas como a arte é extremamente relativa, para você os cacos podem ser a síntese da humanidade. Esse é o problema, o que é relativo acaba com qualquer definição... eu não deveria ter falado em uma definição da arte, mas em um conceito, que é mais conotativo, mais abrangente e depende muito mais da interpretação do que da denotação bruta de dicionário.

As novidades são boas para quebrar a estética careta, de que tudo tem que ser quadrado, caber dentro de um retrato ou então ser a mesma fôrma de bolo com ingredientes diferentes. Legal mesmo é deformar a fôrma! Mas, tem que tomar cuidado para que não fique só você usando a fôrma, no entanto fazer com que a anti-arte vire arte para todos é muito complicado, tão complicado quanto fazer com que um homem vivo se torne herói, ou que um cientista vivo seja reconhecido pelo seu trabalho.

Às vezes encontrar sentido em uma arte é tão difícil quando obter sucesso mandando um homem cego procurar um gato preto dentro de uma sala escura. A matemática para os matemáticos; a ciência para os cientistas; a arte para... talvez nem os artistas.

Postado por Adriano
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21.07.06

Permalink 15:55:00, categorias: Artes. criado por letrasdespidas

Degas e o impressionismo

Hoje eu fui para o MASP , com meus amigos (Laís e Adriano). Lá eu vi a exposição do Edgar Degas ,onde tinha a coleção completa dos bronzes dele (ou seja, as suas esculturas (de bailarinas e cavalos) e também um pouco de sua história , Degas faz parte da pintura moderna , ele é impressionista.
O impressionismo nasceu do realismo,em 1875 quando um grupo de jovens (Renoir,Degas,Cézanne,Pissarro,Sisley,Morisot e Monet) fizeram uma exposição coletiva em Paris,a exposição não fez sucesso,a maioria os condenavam,considerando-os falsos pintores ,que ignoravam a beleza ,as regras tradicionais da pintura e os princípios eternos da arte .Os visitantes quando não se indignavam,riam .Assim a exposição se encerrou um mês depois.
Os impressionistas inovaram na técnica e na expressão da pintura,por isso não foram aceitos no mundo da arte,sendo massacrados pelos melhores jornais de Paris como Le figaro e Le temps. Apenas em 1927 aceitaram o impressionismo como uma boa forma de arte,e o governo francês criou um museu em Paris, o jeu du paume ou o Museu dos Impressionistas.
Se você ler a respeito,na época em que o impressionismo estava começando,tinha três tipos de arte ,o neoclássico ,romântico e realista.
O neoclassicismo (exemplo Antonio Canova) inspirava-se diretamente nas obras da antiguidade clássica e da Renascença italiana.Procuravam imitá-las.
A pintura romântica (um ex. é o Delacroix) prega a liberdade individual acima das regras e normas acadêmicas enquanto os neoclássicos são essencialmente lineares ,expressando-se mais com a linha ou o desenho,os românticos são coloristas, imaginativos e pessoais do artista. Como os barrocos (exemplo Michelangelo) movimentam as formas e a composição, acentuando os contrastes de cores e luzes, pra maior intensidade de expressão dos sentimentos.
Os realistas, por exemplo Courbet disse que jamais iria pintar um romano da antiguidade ou um anjo porque jamais os vira.O realismo é a representação das coisas reais e existentes.
Todos os três são figurativos realistas,uns mais outros menos,mas o fundamento de suas pinturas é a imitação da realidade ou realidade visual.Agora vamos mostrar um impressionista.Não está preocupado em imitar modelos ou evocar formas ideais de beleza, através dos gregos e renascentistas, como o neoclássico.Muito menos deseja impregnar de subjetivismo e dramaticidade o modelo, emocionado a realidade como o romântico. Também não está interessado na verdade do modelo, enriquecendo-a de significados humanos, políticos ou sociais, como faria o realista.
Ainda tem muito mais o que escrever do impressionismo,mas com isso percebe-se a razão que eles não foram aceitos nem nas galerias e museus,nem nos jornais e revistas e nem na famosa Belas-artes .

 

Postado por : Bia
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