Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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28.01.07

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O BBB é o retrato da nossa realidade

Big Brother Brasil é uma homenagem ao escritor George Orwell, com todo o respeito ao falecido, é lógico. Já dizia o inglês que o "Grande Irmão", expressão empregada para metaforizar o controle de privacidade que ele previa, estava te vigiando. Na verdade, estas idéias estão contidas num dos seus maiores sucessos, a obra-prima "1984". Ao lado de "A Revolução dos Bichos", Orwell faz um retrato muito interessante da sociedade e seus desdobramentos.

Mas não é especificamente sobre ele que eu quero falar. Vim aqui escrever sobre um programa conhecido por todos, o global BBB. Este programa é a síntese de todos os conformismos. Até antes, eram em torno de 14 integrantes que ficavam falando bobagens, sem fazer nada o dia inteiro, tirando uma de "guerreiro cansado", sexualidade, voyeurismo (sentir prazer pela observação de cenas contendo certo teor de obscenidade), e tantas outras coisas que povoam a mente do brasileiro e fazem com que o ibope seja superior a 43 pontos. As novelas das oito e o BBB estão ali, ó, pau a pau.

Parece que a Rede Globo, nesta sétima edição, aumentou para 16 o número de participantes e excluiu a "plebe ignara", como dizia Stanislaw Ponte Preta. Quando a Globo selecionava os participantes, depois de um tempinho escolhia ao acaso mais 2. Como a massa brasileira é, como podemos dizer, mais desfavorecida, os 2 participantes que entravam na casa por sorteio eram de classe pobre, enquanto os outros de classe média e média alta.

Era o maior contraste televisivo! O inverso das estatísticas! A maioria da casa era mais favorecida, e a minoria não. Ao contrário do que ocorre com o nosso país. Lógico que isso não era indicativo de que a maioria favorecida da casa era de bom nível intelectual. Naquela pequena massa bigbrotheriana, continha pessoas que confundiam se a África era país ou continente, que dizia "cada um com seus probrema", que cantava "iaruou, iar de silver", paródia natural da música "We are the world".

Além do mais, aceitar tamanha exposição não denota uma cabeça boa, a não ser que, a exemplo do que largamente vemos no mundo de hoje, os seres humanos querem mais é aparecer. Mulheres e homens a fim de sair em revistas, receber autógrafos, sofrer rajadas de flashs, ser elogiado na rua pela plebe ignara, mostrar seu bumbum recauchutado. Aquele velho ideal de beleza e moda que move o planeta Terra.

"Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre". Frase do Orwell. "Todos os homens são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros". Clássica dele também. Não me lembro se é "homens" ou "animais" que ele usa. Mas isso não importa, o homem é um animal e nos dois casos dá certo.

Enfim, o BBB foi colocado de maneira estratégica para alguém assitir. Ele (o cidadão), chega em casa depois do trabalho, senta no sofá, cansado, suado, pega o controle remoto e aperta ON. A televisão liga no canal padrão, no marco zero das famílias brasileira, a referência: o canal 5, a Globo. O Big Brother, que passa no horário nobre, atinge o cidadão no melhor horário para ver TV, depois de um dia exaustivo. Ou será que estou sendo otimista demais? Na verdade é assim: “Mãe, corre logo, vai começar o BBB! Vamos ver quem vai sair, se é a loira tingida ou o modelo da bunda arrebitada”.

Ele (o programa) não é apenas um programa. É um retrato da nossa realidade. É a felicidade tupiniquim enlatada numa faixa de horário. É um culto ao inútil. Uma exaltação a um deus de porcaria nenhuma. É uma vitamina reforçada, com tudo que precisamos para ser feliz e, pásmem, cultos! A atualidade resumida e representada por 14 emergentes. Imagino só o cara que trabalha na parte técnica do BBB, que passa parte da vida cuidando da vida de quem não tem mais idade para gritar “mãe, vem me limpá”. Parece até animal doméstico (com exceção do grito, evidentemente).

O BBB é uma massificação do real, um suco concentrado de tudo que vemos hoje e que, e isso não vem de hoje, o brasileiro adora. Aquilo é um mix. Para alguns, a dose diária de diversão, para outros, uma dose cavalar de futilidade. Já que tudo não passa de um show de ficção, uma vida paralela à nossa, um The Sims sem controle. O BBB é, sem sombra de dúvida, a nossa maior fotografia, a síntese da existência humana. De maneira prática, colorida, divertida e, para completar a batida, vem no horário nobre no canal padrão. Perfeito, não?

Postado por Adriano


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