Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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13.01.07

TERRA_PERMA_LINK 15:19:38, TERRA_CATEGORIES: Ciência. TERRA_POSTED_BY letrasdespidas

O urânio é nosso!

O Brasil possui uma das maiores reservas de urânio do mundo, e vem estudando essa tecnologia de enriquecimento de urânio para a nossa intrigante usina nuclear. O que faz a pesquisa com energia atômica do nosso país ser tão polêmica é a restrição às inspeções técnicas da ONU e a bobagem que as comunidades internacionais andam dizendo, provavelmente para frear a nossa evolução nuclear e nos manter dependente de fontes externas. Se há algo que faz parte da ordem natural dos países subdesenvolvidos industrializados como nós é a dependência da tecnologia dos países ricos.

O urânio encontrado na natureza é uma mistura de isótopos (mesmo número de prótons) desse elemento químico, cujo isótopo mais abundante é o urânio 238, ou U-238, isto é, possui 238 nêutrons. A técnica de enriquecimento de urânio consiste em aumentar a concentração de urânio 235, que existe em pequena quantidade porque é muito instável, decompondo-se facilmente e gerando muita energia. Uma bomba nuclear, por exemplo, necessita de mais 90% de U-235, enquanto na natureza ele é encontrado em concentrações pequenas em torno de 0,7%. Por isso o nome enriquecimento.

Em maio do ano passado, o Brasil inaugurou a sua primeira fábrica de enriquecimento de urânio em Resende (RJ). A partir daí a discussão começou. O fato é que a nossa tecnologia é, em alguns pontos, mais avançada que a dos outros países. A maioria das centrífugas mundiais fica apoiada sobre um eixo central, que vai se desgastando com o tempo, assim os custos com o processo aumentam. No Brasil, as centrífugas ficam levitando sobre um campo magnético, de maneira que o produto final saia mais barato.

O impasse existente ocorre porque o Brasil é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), inaugurado após a explosão das bombas de Hiroshima e Nagasaki, para evitar conflitos nucleares. Porém, nosso país não aderiu a um protocolo adicional, que permitiria à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) inspecionar nossas usinas sem restrição nenhuma e sem aviso prévio. Com medo de uma espionagem tecnológica, o Brasil não cedeu, pois não existe patente quando o assunto é energia nuclear, então ele não quis revelar o seu segredo industrial.

A partir daí, a comunidade internacional vem dizendo que o Brasil quer fabricar bomba atômica e apresenta um perigo à humanidade. Isso é uma grande besteira, uma paranóia pós-11 de setembro. Na verdade, eles querem roubar a nossa tecnologia. Dizem que estamos fazendo como o Irã, que atua na surdina (tanto é que rompeu com o TNP). Nosso país está cumprindo todas as regras à risca, até permitimos que eles inspecionassem nossas usinas, com a única exceção de verificar as nossas centrífugas, que ficam guardadas dentro de um armário para proteger a propriedade tecnológica. Antes nunca reclamavam disso, mas agora estão se pegando. Disseram até que o Brasil pode produzir 6 bombas atômicas por ano.

Odair Dias Gonçalves, chefe do programa nuclear brasileiro, afirma que a quantidade de enriquecimento de urânio nacional não passa de 5%, suficiente apenas para servir como combustível e gerar energia elétrica. Segundo ele, a idéia de que estamos preparando armas nucleares é ridícula:

“Acho que todos os países tem o direito de investir em defesa. Os EUA, por exemplo, são os que mais investem e desenvolvem armamentos. Acontece que essa não é a vocação do Brasil. Mesmo porque, num mundo em que a guerra é toda baseada em alta tecnologia, não adianta você ter um revolverzinho de brinquedo – é burrice pura”.

Além disso, a energia nuclear é vista como uma alternativa para o combate ao aquecimento global, uma vez que só emite para atmosfera vapor d’água. O problema é o lixo radioativo, mas o seu processamento de maneira a não poluir já é fisicamente conhecido, porém não para a aplicação em larga escala. Assim como o defeito da aviação brasileira apareceu cobrindo outros problemas como a ineficiência do transporte público por parte dos ônibus, o lixo radioativo também serve para esconder o problema das garrafas pet, que provocam uma quantidade de lixo absurdo, muitas vezes abandonado por aí. A vantagem das usinas nucleares é que eles guardam para eles o que produzem.

De qualquer jeito, há os riscos de vazamento e contaminação, entretanto, as pesquisas com segurança se intensificam. O velho caso de Chernobyl, que aumentou o medo pela energia nuclear, torna-se uma realidade mais distante, já que também foi produto de um certo descaso dos operadores.

Além do mais, o Brasil já utilizou muito de seu potencial hidrelétrico, e a usina termelétrica é mal vista hoje em dia por causa da poluição atmosférica que causa chuva ácida e fortalece o efeito estufa. A bioenergia, com o pioneirismo brasileiro do biodiesel, entra no impasse de como arranjar terras para a plantação. Como muitas outras fontes, como a eólica e a solar, são eficazes para pequenas regiões, a energia nuclear é finalmente bem vista, mesmo com todos os tabus existentes.

A atitude do Brasil de barrar os interesses imperialistas é muito plausível, pois é evidente que eles querem manter o controle, a exclusividade, o monopólio sobre essa fonte de energia tão peculiar. Por isso que distorcem tanto. Os EUA, por exemplo, dizem que os cientistas exageram quando falam dos futuros problemas do aquecimento global, ao mesmo tempo em que apimentam as bobeiras sobre o nosso programa nuclear. Eu só espero que o Brasil possa continuar desenvolvendo seu projeto, enriquecendo urânio e diversificando a nossa matriz energética, que já não suporta mais os modelos tradicionais.

Postado por Adriano
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