Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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04.01.07

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Desigualdade Persistente: parte II

(a parte I está abaixo deste post)

Os índios não conseguem mais viver de forma tradicional, sofrendo com invasões de latifundiários, garimpeiros, trabalhadores sem-terra e tantos outros que assim como os indígenas desejam terra para si, seja para plantar, minerar ou cultivar sua cultura. Conflitos como esses tornam-se mais vorazes quando existe uma lei não cumprida que deveria resguardar os direitos coletivos e individuais de cada grupo
.

Já os negros almejam uma vida no mesmo ambiente que os brancos, porém não conseguem isto por causa da grande discriminação que sofrem, gerando violência que, direta ou indiretamente, afeta a todos: brancos, governo e inclusive aos próprios negros. As figuras do bandido, do traficante e do saqueador, além de terem o crime em comum, são normalmente atribuídas aos negros. Os crimes de agressão física, como homicídio, cometidos por eles são mostrados com maior destaque nos meios de comunicação, em relação aos brancos.

De que adianta ser a terra das misturas étnicas quando grande parte destas são excluídas e desrespeitadas? O Brasil não consegue conciliar interesses e muitos menos amenizar as brigas, pois as soluções que atacariam na raiz do problema, como proteção ao índio e diminuição da concentração de renda, são muito mais difíceis de serem postas em prática, optando por soluções superficiais, como assentar os indígenas em terras à mercê de invasores, implementar política de cotas para as universidades e aumentar o número de seguranças em determinados locais visitados pela elite.

De certa forma, todos sofremos com isso, não há vilão ou mocinho. O que faz um se sobressair não é a bondade de uns ou a maldade de outros, mas o sistema, a história e a sociedade que distinguem quem será pobre, quem será excluído, quem será marginalizado etc. Sofremos as conseqüências das atitudes discriminatórias dos detentores do poder: maiores responsáveis por mudanças significativas, sobrando a nós, população, unir-se em prol de todos, porém, os conflitos acontecem entre nós mesmos, pois não há unidade entre o povo quando um sujeito é rico e o outro é marginal. Etnias fragmentadas vítimas de variadas formas de violência: talvez seja isso que possa resumir a tal da diversidade cultural brasileira.

Se continuarmos assim, eternamente assistiremos às cenas de índios sendo queimados, ataques de crimes organizados e outros acontecimentos que insistimos em tachá-los com a velha idéia maniqueísta. A solução proposta não é unificar toda a cultura nacional, cuja tentativa apenas amplificaria as discórdias, mas fornecer o mínimo para uma vida digna: se os índios querem espaço, deixem que eles apliquem seu desenvolvimento sustentável; se os negros querem oportunidades de emprego, então punem aqueles que podem oferecer mas não o fazem por preconceito.

O passo inicial para uma evolução gradativa rumo ao fim das desigualdades sociais, culturais e étnicas é o respeito e tolerância, uma vez que cada etnia vive no seu tempo, no seu estilo, mas são obrigados a, de uma maneira ou de outra, adaptarem-se a um padrão adotado pela maioria. Tornar isso realidade é ao mesmo tempo um desafio e um grande avanço. Quem sabe assim poderemos mudar o que nos resume como país da miscigenação para algo como: diversas etnias vivendo a seu modo, porém em perfeita harmonia.

Postado por Adriano
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