Letras Despidas

O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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03.01.07

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Desigualdade Persistente: parte I

Desde a história nacional como a conhecemos, nosso país sempre foi marcado por miscigenações. Índios nativos, negros africanos, brancos europeus e outras etnias fizerem do Brasil um país no qual torna-se impossível a tarefa de definir quem é a verdadeira identidade brasileira. Todavia, mesmo com as mestiçagens genéticas e culturais, como nosso povo ainda não conseguiu aprender a conviver com as diferenças?

Estudos indicam que a população indígena está em crescimento, após vários séculos de redução. A princípio, essa notícia parece agradável, uma vez que demonstra a sobrevivência dos índios perante toda a “evolução” humana, porém, ao se observar o contexto em que eles se inserem, há um triste fato: como eles vão conseguir se adaptar a um Brasil praticamente dominado pela cultura ocidental? Como conseguirão terra para a sua vida original diante de tantas florestas destruídas para a prática da agricultura?

A Constituição indica que deve haver uma “preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”. Infelizmente as leis não são cumpridas, graças ao grande interesse avassalador e intolerante, aliado ao chamado “jeitinho” brasileiro, que faz com que certos grupos derrubem cabanas, apossando-se de suas terras, e dizimem populações nativas inteiras para implantar seu modo de produção.

Basta observar a situação das tribos indígenas hoje em dia, num mundo cada vez mais globalizado: perderam parte de seus costumes, como suas vestimentas. Para solucionar isso, não basta apenas delimitar terras, pois, como foi dito anteriormente, sua cultura não é respeitada. Além de espaço, eles precisam de proteção: deve existir alguma fiscalização, impedindo a exploração econômica indevida das reservas e garantindo a posse exclusivamente às comunidades indígenas. Entretanto, a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão governamental responsável pela tarefa, está definhando: possui 2.100 funcionários, menos da metade que possuía quando foi fundada, sendo que apenas um terço desse total está atuando nas terras indígenas, e, mesmo assim, questiona-se sua responsabilidade.

Como se não bastasse, não são só os índios que sofrem no Brasil, mas também os negros. Ser negro em nosso país significa ganhar a metade do salário dos brancos, viver cinco anos a menos e ter quase 50% de probabilidade de tornar-se pobre. Sete em cada dez moradores de favela são negros; para cada branco analfabeto, há dois negros que não sabem ler; se chegarem à escola, os negros passarão dois anos a menos estudando e, depois dos 25 anos, apenas um em cada cinco concluirá o curso superior.

O maior motivo para estas informações impressionarem é a existência de uma idéia de que quem sofre com isso são apenas os pobres, mas não se ressalta de que a maioria destes são negros. Assim, desde a abolição da escravidão, com a miscigenação e ausência de conflitos abertos, criou-se o mito de um país sem racismo nem discriminação, onde o negro faz parte da sociedade com a mesma importância que o branco, o que é uma grande mentira.

Essa exclusão gera margens para idéias arcaicas e preconceituosas, ao dizerem, por exemplo, que a justificativa para o número de negros analfabetos ser maior que o de brancos ocorre por incapacidade individual. Na realidade, eles passam por isso por causa das péssimas condições de vida a que foram e são submetidos, como a pobreza e a necessidade dos jovens abandonarem à escola para contribuir com a renda familiar.

Se com a escravidão os negros não tinham liberdade alguma, a situação não mudou muito após sua abolição. Eles deixaram de ser escravos, mas, sem uma educação básica não tiveram condições mínimas para recomeçar a vida. Não houve nenhuma medida de governo na época, como uma ampla reforma agrária, que de fato alterasse a injusta distribuição da riqueza nacional e permitisse à população negra o acesso a uma vida melhor. Na ausência de mão-de-obra escrava, o estado brasileiro não quis investir na melhoria da qualificação profissional dos antigos cativos. Preferiu incentivar em uma ampla migração européia. A partir de então, a discriminação contra os negros andou lado a lado com a fortíssima concentração de renda em nosso país. Logo, a maneira que os menos favorecidos encontraram para sobreviver foi através dos empregos informais, quando, não raro, na entrada ao mundo do crime.

(em breve a parte II)

Postado por Adriano
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