18.12.06

11:54:26, TERRA_CATEGORIES:
Social. TERRA_POSTED_BY letrasdespidas
Excesso de livros e escassez de leitura
O brasileiro lê pouco. Isso todo mundo sabe, além de ser constatado freqüentemente nos nossos meios de comunicação. Entender a falta de leitura é uma análise muito mais profunda do que dizer “ele não lê porque é preguiçoso”. As causas desta deficiência são muitas. Tentarei, neste artigo, relacionar algumas que considero as mais importantes a serem supridas.
Escolas de má qualidade
Livros, de uma forma geral, exigem uma base de cultura letrada para seu entendimento. Se um jovem não vem de uma escola com bom ensino, dificilmente conseguirá entender um livro do Machado de Assis. E mesmo tendo uma boa formação cultural, pode ser que tenha dificuldade na interpretação das obras nacionais, principalmente as clássicas, o que mostra que o problema vai além da educação básica. Mesmo assim, esta contribui em grande peso.
O fato é que as escolas, principalmente as públicas, estão carregadas de professores que também não têm cultura letrada. Como um professor vai lecionar uma boa aula de Língua Portuguesa se ele escrever “proficional”, “a gemte”, “geito”? Estes professores também passaram por uma escola de má qualidade, e forma aquele velho ciclo vicioso que todos conhecem: o professor não sabe, então o aluno não aprende; depois, o aluno vira professor e vai dar aula, mas como não sabe, o seu atual aluno também não aprenderá...
Enfim, os problemas no ensino brasileiro são muitos, chega a ser tema para outro artigo. Quem quiser ler, vá na categoria Social e procure por um artigo um pouco mais antigo que se chama “Ensino público está na privada”.
Estímulo à leitura
Com certeza, os projetos de incentivo à leitura que nós todos tivemos na escola, sentando em círculo e revezando a leitura, não são suficientes para o aluno sair dali e comprar um livro. Hoje em dia, é necessário um estímulo mais forte. Quem é capaz de mudar regras, derrubar presidentes, ditar moda, acabar com costumes? A mídia, é claro. Porém, aí ocorrem alguns impasses básicos.
Vocês acham que os meios de comunicação desejam cidadãos pensantes? É lógico que não! Senão estes até questionariam sua programação, vinculada à uma população de baixo nível intelectual que sente-se satisfeita ouvindo fofocas de artistas, intrigas entre apresentadores e imagens do casamento de não sei quem. Slogans como “Cultura, a gente vê por aqui” da Rede Globo, ou “Desligue a TV e vá ler um livro” da MTV não adiantam em nada.
É por isso que os meios de comunicação em massa lucram. Como no mundo atual tudo é movido a lucro, pense onde fica a maior parte do ibope. Disparadamente são nas novelas. E o que são as novelas? Um teatro repetitivo onde não há esforço para pensar, você não precisa mastigar o que está vendo, está tudo pronto para comer.
Elitização da cultura
As editoras elevam o preço dos livros a patamares inacessíveis à população de baixa renda e até mesmo para a classe média, que mesmo tendo dinheiro para comprar, sente-se incomodado com o absurdo dos preços. Isso se a classe média for comprar um livro, talvez esteja mais interessada em um celular novo ou em um carro zero quilômetros, mas isso não vem ao caso.
Tânia Pellegrini, formada em Letras pela Universidade Federal de São Carlos, escreveu um artigo com o nome “Ficção brasileira contemporânea: ainda a censura?”, dizendo que com o fim da ditadura militar e, conseqüentemente, o fim da censura política, nós entramos numa época em que vivemos algo como uma censura econômica, pois as editoras aproveitaram que podem vender qualquer tipo de livro e puseram seus preços a níveis elevados. “Você pode comprar o que quiser, se tiver dinheiro para o que eu te ofereço”. Leia um pedaço do que Tânia Pellegrini coloca no artigo:
“O produto cultural foi acentuando cada vez mais seu caráter de mercadoria, a ponto de se tornar lugar-comum dizer que o Estado tornou-se, então, o grande mecenas da cultura, aquele que paga, mas exige fidelidade em troca. Em suma: os interesses gerais do Estado e dos novos empresários da cultura passam a ser os mesmos; a questão da cultura é conjuntural, enquanto a formação e o fortalecimento de um mercado integrado – que inclui os bens culturais – entra como peça da nova estrutura econômica que se desenvolve no país.”
Esta “nova estrutura econômica” a que ela faz referência é parte da transição durante a ditadura militar e a nova república.
Abismo entre literatura infantil e adulta
Aqui no Brasil não há muitos autores que escrevam livros de literatura infantil ou infanto-juvenil que consigam colocar uma carga cultural intrínseca de maneira a estimular o novo leitor a ler obras mais “profundas”. O Paulo Coelho, por exemplo, seria um bom pontapé à leituras mais difíceis, mas, além dele, não há muitos conhecidos. Os autores mais lidos, neste aspecto, são os estrangeiros, como: JK Rowling e “Harry Potter”, que serviu como grande incentivo à leitura; Tolkien com “O Senhor dos Anéis”; Dan Brown e “O Código Da Vinci”; Agatha Christie etc.
A revista Superinteressante, outra forma de entretenimento que também serve como ponte à novas leituras, publicou um artigo com o nome “Autores que escrevam sobre nada”, numa edição de fevereiro de 2005, de um estudante chamado Bruno Miquelino da Silva, onde ele fala:
“O ser humano carece tanto de momentos de reflexão e sapiência quanto de entretenimento de descanso. Mas nossos críticos literários parecem não ver isso e continuam crucificando todo e qualquer livro que não traga ‘um algo a mais’ ao leitor. E nossa população continua a ler menos. As novelas estão aí para provar. Cada vez mais aumenta o número de telespectadores que assistem a elas na ânsia de se entreterem com uma grande quantidade de nada.”
Ele propõe que aumente o número de autores nacionais que não falem sobre coisas muito importantes, mas que sirvam para a pessoa sair dos “Três Porquinhos” e vá para “Sagarana”. O único perigo dessa ação é que a população só fique no nível básico de leitura, sem progredir aos poucos.
Bom, considero estes quatro aspectos que coloquei ao longo do texto os mais importantes. É claro que há outros, como a vida moderna cheia de tarefas e atribulações que tiram o tempo de dedicar-se à leitura, mas tentei aprofundar mais naqueles. Infelizmente nós não podemos fazer muito para incentivar à leitura. Fico impressionado quando entro no Orkut, por exemplo, e veja no perfil de alguém de classe média ou média alta escrito: “Não gosto de ler”, ou “Não consigo acabar de ler um livro”. É realmente assustador saber que aqueles que têm acesso e oportunidades à leitura ignorem isso. Mas fazer o quê?
Postado por Adriano