O blog Letras Despidas foi fundado no dia 8 de julho de 2006 pelos antigos amigos Adriano e Bia. Ambos procuravam discutir sobre vários temas, de arte à política, passando por ciência e filosofia.
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O País do Asfalto
Quase 60% da matriz de transportes brasileira são compostas por rodovias. As ferrovias e hidrovias somam cerca de 40%, e para o dutoviário sobra uma porcentagem ínfima. As estradas interligam diversos pontos do país e são as maiores responsáveis pelo escoamento de produção, rumo à exportação. Para analisar a nossa matriz, precisamos compreende-la por alguns pontos:
Por terra
O Brasil é o país do asfalto. Isso não é muito positivo, pois a expansão e manutenção das estradas são caras, além de ser difícil manter em boa qualidade e sob controle tantas rodovias que existem em um país de dimensões continentais como o nosso. Conseqüências: buracos. Parte da produção sofre atraso por causa da grande quantidade de buracos que existem em nossas estradas, trazendo insegurança para o motorista que conduz o caminhão e aumento dos preços, que recai sobre o consumidor, uma vez que se gasta mais para levar o produto de um lugar a outro do que o normal em um sistema de qualidade.
O governo, para tentar amenizar estas dificuldades, iniciou neste ano a Operação Tapa-Buraco. Por enquanto, atinge mais da metade das estradas com problemas. Porém, a má situação do sistema rodoviário ainda traz prejuízos para a economia nacional: cerca de 78 bilhões de reais não são ganhos todos os anos, devido o prejuízo. Além disso, o Brasil torna-se menos competitivo no mercado externo, por apresentar impostos altos tentando cobrir estas mazelas.
A dependência de rodovias é um problema histórico. “Governar é construir estradas”, dizia o presidente Washington Luís, da República Velha. A partir de 1928 (durante seu mandato) as rodovias começaram a crescer bem mais do que as ferrovias, antigamente utilizadas para o transporte de café, o grande produto tupiniquim. E assim foi indo durante os anos. Quando o presidente Juscelino Kubitschek trouxe as indústrias automobilísticas para o país, isso intensificou o aumento do sistema rodoviário, em detrimento do ferroviário. Desde então, nada foi significantemente feito para a melhoria das nossas locomotivas.
O transporte por terra é indicado para distâncias curtas, pois se gasta relativamente bem para transportar pequenas quantidades de cargas, suportadas pelos caminhões. Assim, o Brasil deveria diminuir o uso excesso desse meio, ou, no mínimo, consertar as nossas linhas asfaltadas que estão em frangalhos.
Por trilho
O problema inicial: há poucas linhas ferroviárias. Se observar o mapa das redes de transporte do país, verá que a maioria das linhas vai de dentro do país para o litoral. Tudo bem se preocupar com as exportações, mas essa aparência é muito colonial. Há poucas linhas que servem para integrar as regiões do país, o que seria uma alternativa ao uso excessivo de estradas. Ainda mais porque os custos com os trens não são tão altos se comparados com a quantidade de cargas que podem transportar. No entanto, quem tem coragem para ressuscitar o sistema ferroviário?
As privatizações dominaram as ferrovias. Segundo o Ministério dos Transportes, 100% da matriz ferroviária foi privatizada. Isso foi feito para reduzir a bomba na mão do estado, mas as empresas privadas não investiram tanto quanto foi prometido. Umas das dificuldades enfrentadas foi o prazo de concessão, ou seja, o tempo em que podem explorar comercialmente os trechos, que muitas vezes não é suficiente em vista do tamanho da encrenca.
Por água, por dutos e por ar
O Brasil tem uma extensão muito grande de rios, o que justificaria uma ênfase no transporte hidroviário. Ele é mais barato e transporta uma quantidade enorme de cargas. Talvez, o mais caro de tudo isso seja a construção que barragens e eclusas, que devem ser estudadas para que não causem um desequilíbrio ambiental, os populares impactos que o mundo conhece muito bem. Indicada para longas distâncias, porém com sua participação reduzida na matriz de transporte. Outro empecilho: há poucos portos, fazendo com que certas cargas fiquem em filas esperando para ser transportadas, ou seja, o problema do atraso novamente.
Quanto aos dutos, não há muito que falar. São utilizados para o transporte de gás natural, petróleo e seus derivados. Já o transporte aéreo, abastecido pelos aeroportos industriais, é uma alternativa para o transporte de bens duráveis ou de produtos perecíveis, uma vez que transporta pouca carga, mas com uma rapidez inigualável.
Em suma, para o melhor equilibro de nossa matriz de transporte, o Brasil deve principalmente se apoiar sobre o tripé rodoviário-ferroviário-hidroviário. Imagine uma situação onde um caminhão leva um produto de onde foi produzida até uma estação de trem, então a locomotiva leva até os portos e daí vai para outros lugares do mundo. Seria ideal, não?
Todavia, como as coisas não andam, somos obrigados a ver mais uma daquelas medidas superficiais: a Operação Tapa-Buraco que citei lá em cima. O governo pensa que tapar buraco é a solução. Aliás, o que nesse país não é feito na base de tapar buraco? O que deveria ser refeito são as bases da nossa matriz de transporte, tampouco ele sabe que aí está o problema, ou se sabe, utiliza-se das soluções imediatas, fechando os olhos para o verdadeiro desafio. Aliás, o que nesse país não é feito cegando a realidade?
Por Adriano
Obs: os dados foram retirados do Almanaque Abril, 2ª edição de 2006. Por sinal, vários dados de outros textos também foram retirados de lá (não dá para guardar tudo de cabeça, né?)