

Hoje fui assistir à peça "Pessoa de Caeiro". A montagem vista nesta noite de terça teria como objetivo transmitir ao público a essência do heterônimo de Fernando Pessoa, passar para a platéia , utilizando o recurso teatral ,toda a magnificência do mundo deste ilustre Heterônimo considerado, pelo próprio Pessoa, como o grande gênio de sua poesia.
A peça, dirigida e interpretada pelo ator Jefferson Brito, tentou passar um pouco de cada um dos mais famosos Heterônimos de Fernando Pessoa. Entre estes, o engenheiro Álvaro de Campos, amargurado e pessimista, descreve em sua poesia as maquinas e a agitação da cidade. Sua obra é um desabafo febril de um futurista inquieto.
O Médico Ricardo Reis, mais erudito de todos, é um conservador que insistia na defesa dos valores tradicionais da literatura e da política. Através do neoclassicismo Ricardo mostra-se atraído pela natureza, sendo um fiel discípulo de Caeiro.
Alberto Caeiro, o gênio de Fernando Pessoa, é a personificação da completa naturalidade, em todos os sentidos. Sua aversão ao pensamento científico, à metafísica e ao simbolismo fazem dele um homem totalmente voltado aos elementos que o cercam. Ele não diferencia o ser humano da pedra, o rio da árvore, o pássaro da folha. Segundo o camponês seu realismo sensorial o faz tender ao desejo de não pensar e ao desejo de não desejar. A poesia de Caeiro é a mais simples de todas, tanto em relação ao estilo quanto ao vocabulário, refletindo assim seu modo de vida rústico e sua falta de ilustração.
Sozinha, a personalidade de Caeiro é profunda o suficiente para uma análise de mais de uma hora de peça como é também a dos outros dois heterônimos. A peça vista hoje não passa de um apanhado extremamente superficial das características básicas de cada um dos três heterônimos, focalizando trechos de seus principais poemas. A produção sonora e visual enriquecem a montagem, mas a sua falta de conteúdo e de focalização no heterônimo de Caeiro fazem a peça ser apenas um show de interpretação do ator baseado nos heterônimos do poeta modernista.
Cada uma destas personalidades criadas por Fernando Pessoa apresenta peculiaridades psicológicas diversas que merecem analise profunda e detalhada. Ao propor um trabalho baseado na obra de um célebre poeta outrora comparado à Camões, que este seja um bom trabalho para não desmerecer a genialidade do grande poeta lusitano.
“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...” (Alberto Caeiro)
Postado por Mariana