Independência no papel amarelado
Olá,
Hoje é um dia importante na história nacional. Exatamente no dia
7 de Setembro de 1822 o Brasil foi proclamado independente. A versão heróica que conhecemos diz o seguinte: Dom Pedro I, todo glorioso, gritou "Independência ou Morte" às margens do Rio Ipiranga. A partir daí deixamos de ser colônia de Portugal... até aqui parece tudo lindo, bem
cor-de-rosa, como nossas professorinhas do primário nos ensinaram. Mas, antes de seguirmos adiante com isso, vamos voltar um pouco na história:
1789: nesse ano acontecia a
Revolução Francesa, que foi muito importante para independência brasileira. Em
1808, com o forte imperialismo de
Napoleão Bonaparte e sua tentativa de conquistar muitos países europeus, a família real portuguesa foi pressionada a fugir de sua terra, pois Napoleão estava para invadi-la. Para onde a família real lusitana foi? Para sua colônia: aqui.
Chegando ao Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, ocorreu a chamada
abertura dos portos, em que nosso país podia estabelecer relações comerciais com outras nações. Isso acabou com o
Pacto Colonial, uma relação de colônia com metrópole. No caso, nós éramos a colônia e Portugal era a metrópole. Isso garantia a exclusivamente na exploração dos recursos nacionais. Podemos até dizer que a chegada da família real ao Brasil, conseqüentemente a abertura dos portos, era a independência na prática. Só faltava assinar no papel, mas, para isso acontecer, levou um bom tempo. Até que em
1822 ocorre.
Ao mesmo tempo em que conquistamos a independência política, ganhamos de brinde a dependência econômica. Na época, a grande potência mundial era a Inglaterra, contraímos uma dívida com ela para sermos reconhecidos como país e não mais colônia. As dívidas existem até hoje, logicamente não mais por causa desse reconhecimento, mas ficamos em um "paga daqui, endivida dali" durante todo esse período. Se antes a nossa dívida era de 3,7 milhões de libras, agora é de 1 trilhão de reais.
Pior que isso é a persistência de uma idéia de que tudo do estrangeiro é melhor do que o nacional. Dizer que você foi conhecer Roraima causa bem menos impacto do que dizer que você conheceu a França. Muitas palavras e expressões estão sendo trocadas inutilmente por línguas estrangeiras, basta dar uma olhada no shopping: por que uma loja não põe apenas "preço baixo" na vitrine ao invés de escrever "off sale"?
Essas influências de pensamento e cultura tornam-se mais aceitáveis quando aplicadas a um mundo globalizado, como o nosso. Talvez seja por isso que não se critica as dependências fúteis que criam a idéia de status (desculpe pelo termo estrangeiro, mas não havia outro). Uma madame vai achar muito mais bonito se disser que é cliente personalité em vez de cliente com atendimento especial.
A independência do 7 de Setembro foi um passo importante tanto para um desenvolvimento político-econômico quanto para a construção da identidade nacional. Só não podemos deixar o produto cultural brasileiro se perder diante de tanta influência que recebemos. Falta cinema. Falta música. Temos todas as armas para mostrar quem nós somos lá fora, já chega de ter que ficar eternamente absorvendo o que tem lá fora para mostrarmos o que somos aqui dentro. A independência, ou pelo menos a consciência dela, não deve ficar apenas no papel amarelado de 1822, e sim na cabeça de todos nós. Afinal, queremos ser o quê? Nós mesmos ou objetos de uso? Se for para ser usado, prefiro saber que estão me usando: pelo menos, se não sou independente, também não sou alienado.
Postado por Adriano
Obs: palavras como "postado", "deletar" e outras são de origem estrangeira que foram abrasileiradas. Menos mal, pois no mínimo tem uma bandeira nacional embutida nela.